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Reading: O subimperialismo brasileiro nos sentidos produzidos sobre o brasiguayo no jornalismo paraguaio

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Literature and Cultural Studies

O subimperialismo brasileiro nos sentidos produzidos sobre o brasiguayo no jornalismo paraguaio

Authors:

Maria Liz Benitez Almeida,

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, BR
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Ada C. Machado da Silveira

Universidade Federal de Santa Maria, BR
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Abstract

This article presents a summary of an investigation of brasiguayos in the Paraguayan media. The methodological approach proceeds to a discourse analysis on the senses produced in journalistic matters and in its comments. Among the results found are five discursive formations identified—here we present the first, which we call “Brazilian subimperialism.” This formation is constituted by Brazil’s subimperialist project to subjugate Paraguay politically, ideologically, and culturally based on historical relations between Brazil and Paraguay. Linguistic, political, and economic aspects, especially with regard to land, permeate the discourse of journalist and reader to present brasiguayos as an extension of Brazil’s subimperialist project.

 

Resumo

O artigo apresenta um recorte de uma investigação sobre os “brasiguayos” na mídia paraguaia. A abordagem metodológica procede a uma análise de discurso sobre os sentidos produzidos em matérias jornalísticas e em seus comentários. Dentre os resultados encontrados, há cinco formações discursivas identificadas e aqui apresentamos a primeira, a qual denominamos “subimperialismo brasileiro”. Ela está constituída por sentidos que colocam o Brasil num projeto subimperialista que busca subjugar ao Paraguai em seu projeto político, ideológico e cultural. Tais sentidos estão calcados nas relações históricas entre o Brasil e o Paraguai. Aspectos linguísticos, políticos e econômicos, principalmente no que tange à pose da terra permeiam o discurso do sujeito jornalista e do sujeito leitor para produzir sentidos que colocam os “brasiguayos” como uma extensão do projeto subimperialista do Brasil.

How to Cite: Almeida, M. L. B., & Silveira, A. C. M. da . (2019). O subimperialismo brasileiro nos sentidos produzidos sobre o brasiguayo no jornalismo paraguaio. Latin American Research Review, 54(3), 665–677. DOI: http://doi.org/10.25222/larr.343
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  Published on 17 Sep 2019
 Accepted on 14 Oct 2018            Submitted on 10 Oct 2017

O artigo registra aspectos de uma pesquisa sobre a migração de brasileiros no Paraguai que iniciaram sua travessia em direção a esse país a partir da década de 1950, os chamados “brasiguayos” ou brasiguaios em Português. O principal questionamento que fazemos refere-se à produção de sentido sobre os brasiguaios nas matérias e nos comentários de Última Hora, diário da capital paraguaia. A escolha do jornal Última Hora deu-se em decorrência dele ser considerado um dos mais importantes em circulação no Paraguai.1 A opção pela versão online do jornal está ancorada, principalmente, na possibilidade franqueada pela interação de leitores com as matérias disponibilizadas na plataforma digital e que contam com a colaboração de distintos usuários que se autodeclaram paraguaios e também os de origem brasileira.

Os fatores que motivaram o objetivo de compreender os sentidos produzidos sobre o brasiguaio está em sua relevância social. Os migrantes constituem, aproximadamente, 10 por cento da população paraguaia, com pronunciado protagonismo nos campos econômico e cultural (Albuquerque 2005). Os imigrantes brasileiros que buscaram o Paraguai o fizeram, principalmente, visando o cultivo de uma terra bastante fértil e economicamente mais acessível que no Brasil, sendo a lavoura o elemento imprescindível para a fixação dos imigrantes e, com o boom da soja, os imigrantes brasileiros passaram a ganhar ainda mais relevância no contexto social. No entanto, o sucesso dos imigrantes brasileiros traz consigo o estigma do conflito agrário, bastante representado na imprensa paraguaia, ainda que, no Brasil, a cobertura jornalística dos conflitos agrários do Paraguai seja pouco relevante. Ao investigar sobre os brasiguaios, constata Albuquerque (2005, 25) que “no Brasil, esse fenômeno é pouco comentado e tem mais uma dimensão estadual ou municipal (estados do Paraná e Mato Grosso do Sul e municípios fronteiriços), já no Paraguai se trata de uma temática nacional e bastante discutida pela imprensa”. Na esfera cultural, a influência brasileira na mídia alterou a cartografia comunicacional paraguaia. A existência de emissoras de rádio em língua portuguesa que difundem a cultura brasileira é bastante significativa. Mesmo nas rádios paraguaias, é comum que soem músicas sertanejas e outros ritmos em voga no Brasil.

Quanto aos estudos da migração brasileira e suas implicações, na busca de trazer uma visão plural dos estudos realizados sobre o tema, consultamos autores paraguaios e brasileiros, dentro e fora da academia, desde os primeiros trabalhos até os mais contemporâneos (Laino 1979; Fogel 2005; Palau 2011). Conforme observaria Albuquerque (2005), também constatamos que esses trabalhos estudam a expansão do plantio de soja no Paraguai, as consequências ambientais do desmatamento e o uso de agrotóxicos, os impactos econômicos, os conflitos de terra entre camponeses paraguaios e grandes produtores brasileiros, ademais dos conflitos culturais. Tais estudos analisam o tema desde perspectivas como “frente de expansão”, “frente de colonização” e “enclave brasileiro no Paraguai”. Percebemos que os trabalhos analisam a identidade paraguaia desde uma ótica homogênea. Sendo seus sujeitos vistos como grandes produtores de soja, responsáveis por problemas ambientais e que obedeceriam à perspectiva consagrada na noção de projeto subimperialista brasileiro.

Já a partir de 1990, são produzidos outros trabalhos no Brasil (Alves 1990; Cortêz 1994) que analisam o fenômeno brasiguaio, neologismo criado no contexto de regresso organizado por brasileiros provenientes do Paraguai para o Brasil. Denunciam o abandono dos Estados brasileiro e paraguaio, assim como a falta de políticas públicas para amparar os brasiguaios vítimas do processo de expulsão gerado pela mecanização da agricultura e latifundização em ambos os países.

Quanto aos estudos sobre sua representação midiática, há análises sobre a mídia na Tríplice Fronteira (Silveira, Guimarães e Dalmolin 2014; Silveira e Guimarães 2016). Percebemos, no entanto, a escassez de pesquisas desenvolvidas no campo dos estudos em Comunicação, cujos objetivos consistam em compreender a produção de sentidos e representações sobre os migrantes. Os estudos comunicacionais realizados no Paraguai, por sua vez, encontram-se em fase incipiente (Almeida e Silveira 2015).

As condições de produção do discurso: O surgimento dos brasiguayos

Adotamos como referências teórica e metodológica a análise do discurso, desenvolvida por Michel Pêcheux (1995) e difundida, no Brasil, por Eni Orlandi (2013). A partir da análise do discurso (AD), compreendemos que o discurso é opaco, polifônico e repleto de possibilidades. Há sentidos já estão instituídos na sociedade. Assim, o sujeito, inserido numa determinada sociedade, apropria-se desses sentidos, acreditando ser a origem do seu dizer (Orlandi 2013). Faz-se fundamental para a elucidação dos sentidos produzidos a partir dos discursos a compreensão das condições de produção de sentidos, tais como o contexto sociocultural e sócio-histórico. O principal dispositivo mobilizado para a análise é o de formação discursiva, doravante FD. Para Orlandi (2013), a FD define-se como aquilo que, numa determinada FD ideológica e dadas as condições sócio-históricas, bem como as condições de produção, determina o que pode ser dito ou não pode ser dito.

Em sentido estrito, a condição de produção refere-se ao contexto imediato; em sentido amplo, está constituída pelo contexto sócio-histórico e ideológico. O contexto imediato são os espaços físicos, temporais (placas, restaurante) em que os discursos se inscrevem. Já o contexto amplo está ancorado na formação da sociedade, ou seja, “os sentidos não estão só nas palavras, nos textos, mas na relação com a exterioridade, nas condições em que eles são produzidos e que não dependem só das condições dos sujeitos” (Orlandi 2002, 30).

Para Courtine (2016) a noção de condições de produção do discurso consiste na regulação entre a materialidade linguística de uma FD e as condições históricas que determinam a produção de um discurso. Isto é, em sentido amplo, as condições de produção incluem o contexto sócio-histórico, como a religião e a classe social. As condições de produção conformam a exterioridade da língua que se responsabilizam pelas relações de força no interior do discurso e vislumbrá-la é necessário para a compreensão das ideologias que permeiam o discurso.

Sob tais entendimentos, ao contextualizar as condições de produção de sentidos sobre os brasiguayos, é inescapável descrever as condições migratórias que permearam o deslocamento dessa parcela de brasileiros ao Paraguai. O deslocamento dos brasiguaios e seus descendentes foi alavancado, especialmente pela política estatal de Alfredo Stroessner, cujo objetivo consistia em atrair agricultores e empresas brasileiras ao país para modernizar a agricultura paraguaia (Ferrari 2007). O projeto stronista foi denominado de Marcha para el Este. Ele buscava incrementar as relações comerciais com o Brasil, a partir das cidades de Foz do Iguaçu (Brasil) e Ciudad del Este (Paraguai), e teve seu ponto alto com a construção da Ponte da Amizade e da Hidrelétrica Binacional de Itaipu.

A construção da hidrelétrica binacional de Itaipu intensificou a migração de brasileiros, atraídos pelo preço da terra e pelas fontes de trabalho geradas. Segundo o Ministério de Relações Exteriores do Brasil, Paraguai é o país com a segunda maior concentração de imigrantes brasileiros, ficando atrás, apenas, dos Estados Unidos da América (Souchaud 2011).

Quanto à denominação desses migrantes, o neologismo viria a ganhar vários sentidos no decorrer dos anos. Sua origem, seus usos e sentidos, é explicada por Fiorentin (2013) como a junção das palavras brasileiro e paraguaio e que teria se dado no primeiro retorno de forma organizada ao local de origem daqueles migrantes que haviam se deslocado ao Paraguai para melhorar de vida, mas que não conseguiram atingir seus objetivos (Marques 2009). Atualmente, são denominados de brasiguayos os descendentes de brasileiros que migraram ao Paraguai (Fiorentin 2013). Albuquerque (2005) ressalta a imprecisão do termo para retratar a complexidade identitária desses cidadãos, pois o termo brasiguayo ganha distintos sentidos a depender do lugar da fala.

A representação desses migrantes e seus descendentes é constante na mídia paraguaia e, em especial, no jornalismo. Os sentidos produzidos sobre o brasiguayo variam entre o camponês pobre que chega ao Paraguai em busca de novas oportunidades de cultivo até o produtor de soja transgênica, associado ao agronegócio. A polissemia que apresenta o termo aponta para a valência da representação midiática, fragmentando a imagem do brasiguayo e a vigência de seu arquétipo no imaginário social paraguaio.

Faz-se pertinente o estudo da produção de sentidos sobre os brasiguayos na mídia paraguaia, pois consideramos que o jornalismo se constitui em espaço de produção de sentido e que o discurso não é apenas uma das outras tantas funções da instituição midiática senão sua principal matéria-prima (Rodrigo 1989).

Quanto ao corpus analisado, o estudo se detém em matérias e comentários coletados entre 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2014, na versão online do jornal Última Hora (veja o anexo). Utilizando as palavras-chave brasiguayo e brasiguaya, brasiguayos e brasiguayas, foram coletadas cinquenta e cinco matérias, das quais dezessete matérias receberam comentários dos leitores. De acordo com os objetivos estabelecidos, foram recortadas 278 sequências discursivas (SD). Devido aos limites do artigo, será apresentada apenas a análise da FD subimperialismo brasileiro—formada por 113 sequências discursivas—, dentre as cinco FD identificadas na pesquisa. FD. Tendo em consideração que FD está calcada em formações ideológicas que condicionam nosso modo de ver o mundo.

Algumas considerações teóricas em AD

A AD não constitui somente uma metodologia dado que ela é uma disciplina formada a partir da intersecção de diferentes perspectivas epistemológicas advindas da linguística, do materialismo histórico e da psicanálise (Caregnato e Mutti 2006; Orlandi 2013). A AD propõe-se a interrogar os sentidos produzidos, entendendo que eles não estão adscritos apenas ao texto do discurso. Há vozes e sentidos pretéritos, pré-construídos, pelos quais “um elemento irrompe no enunciado como se tivesse sido pensado ‘antes, em outro lugar, independentemente’” (Pêcheux 1995, 156).

Já o conceito de FD não pode ser desvinculado da noção de sujeito, pois um dos objetos dos estudos de Foucault centra-se em “produzir uma história dos diferentes modos de subjetivação do ser humano em nossa cultura” (Granjeiro 2011, 37). O sujeito é constituído por acontecimentos discursivos, epistêmicos e práticos. De outro modo, Courtine (2016, 14) explica que o discursivo materializa o contato entre o ideológico e o linguístico, “na medida em que ele representa no interior da língua os efeitos das contradições ideológicas e onde, inversamente, manifesta a existência da materialidade linguística no interior da ideologia”.

Para Pêcheux (1995), um dos principais objetivos foi compreender as posições do sujeito no interior de uma FD. A partir do proposto pelo autor, compreendemos que o discurso está atrelado a posições ideológicas, pelas quais estão regidas as FDs, que, por sua vez, autorizam ou desautorizam o dizer. Ao mesmo tempo, todo discurso é dialógico, ou seja, está atravessado por outros dizeres, assim como pela historicidade. Ou seja, o sentido não existe em si mesmo. Esse fenômeno foi designado de interdiscursividade.

Na perspectiva pecheuxtiana, o sujeito não é pensado como indivíduo empírico senão como o sujeito de discurso, permeado por aspectos sociais, ideológicos e históricos (Grigoletto 2007). O lugar do sujeito está preenchido por saberes estabelecidos pela forma-sujeito ou sujeito do saber de uma formação discursiva que fornece, impõe “realidades” aos sujeitos.

Grigoletto (2007) também explica que, para a teoria do discurso, a discussão sobre a noção de sujeito considera como elementos constitutivos os aspectos sócio-históricos e ideológicos. Isso significa que o lugar que o sujeito ocupa na sociedade traça o seu dizer. A identificação do sujeito com determinados saberes o inscreve a uma FD, migrando do lugar de sujeito empírico ao lugar de sujeito discursivo. A autora parte da exterioridade para discutir a diferença entre o que ela denomina lugar social (sujeito empírico) e lugar discursivo (sujeito discursivo). Duas noções são mobilizadas pela autora para essa discussão: (1) formação social e (2) formação imaginária, cunhada por Pêcheux. A formação social torna-se central, pois delineia o lugar onde o sujeito empírico se circunscreve na sociedade. Já, por meio da formação imaginária os interlocutores se atribuem imagens, sendo tais imagens pautadas pela formação social.

A construção da identidade no discurso midiático

O conceito de identidade vem sendo discutido com maior ênfase nas últimas décadas, tendo em vista que os processos de globalização impuseram novas perspectivas para pensar essa questão. Nas sociedades pré-modernas, a identidade não representava uma problemática fundamental visto que, normalmente, o indivíduo nascia e morria dentro de um mesmo grupo social. Entretanto, na modernidade, as identidades se tornaram múltiplas e sujeitas a inovações (Kellner 2001). No cenário moderno, as identidades modificaram-se, principalmente devido às transformações sociais de finais do século XX que permitiram um novo panorama cultural, de classe, de gênero, de sexualidade, de etnia, de raça e de nacionalidade, colocando em questão a unicidade identitária (Hall 2001). Gregolin (2007) agrega que cada vez se torna mais difícil a fixação do indivíduo em um território identitário único. A partir dessas questões colocadas, olhamos para os sentidos produzidos sobre o brasiguayo. A fuga de uma identidade estática está condensada no neologismo que a designa, mostrando ser o produto da mescla, em princípio, de duas identidades nacionais.

Woodward (2000) também lembra que a identidade é relacional, sendo assim, a existência do Outro é constitutiva na formação de uma identidade. Charaudeau (2009, 309), ao explicar os conceitos de identidade social e de identidade discursiva, também se debruça sobre a diferença na constituição das identidades, dizendo que “a percepção da diferença do outro constitui de início a prova de sua própria identidade, que passa então a ‘ser o que não é o outro’. A consciência de si mesmo existe na proporção da consciência que se tem da existência do outro”. Lembra que, quanto mais se tenha consciência do Outro, mais forte será a construção da consciência identitária do indivíduo. Woodward (2000) reconhece que a diferença é sustentada pela exclusão, sendo construída negativamente, marginalizando aquelas pessoas que são definidas como o Outro. Desse modo, o diferente, muitas vezes, é representado como o “estranho”, como aquele que não se adequa ao grupo. Tais reflexões são centrais para problematizar a produção de sentidos sobre a identidade do Outro.

Muniz Sodré (1992) diz que grupos minoritários são representados na mídia como cidadãos de segunda classe e que vivemos em uma cultura cada vez mais permeada por narrativas e representações midiáticas, nas quais a visibilidade do migrante ou do negro é essencialmente negativa. Tal apontamento vai ao encontro do proposto por Gregolin (2007), para quem as identidades são construções discursivas que estabelecem o que é (a)normal, (in)competente, (in)válido. A autora ainda salienta que os discursos produzidos pela mídia, embasados em técnicas de confissão—reportagens, entrevistas, depoimentos, cartas, relatórios—atuam em um jogo no qual se constituem identidades calcadas numa regulamentação de saberes instituídas ideologicamente na sociedade.

Sendo assim, ao olharmos para os meios de comunicação e para seu discurso, é necessário lembrar que “o papel dos discursos é fundamental, pois é na prática discursiva que as normas e referências ganham existência sensível” (Simões e França 2007, 50).

O subimperialismo brasileiro no discurso

A FD subimperialismo paraguaio está constituída por um saber que vê o migrante brasileiro como agente de um projeto subimperialista do Brasil. Entendendo-se que os dizeres dos sujeitos discursivos estão calcados em processos históricos, despontam os processos de independência do Paraguai, a Guerra da Tríplice Aliança, assim como as relações ulteriores entre o Paraguai e o Brasil. Tendo em vista que os primeiros anos do século XX estiveram marcados pela revisão e reinterpretação da história recente do Paraguai, o jornalismo paraguaio erigiu-se como um dos espaços em que as memórias e as releituras da Primeira República (1810–1870) se instalaram e começaram a plasmar-se no imaginário social.

No início e meados do século XX, um dos objetivos do revisionismo histórico foi devolver a fé e a autoestima ao povo paraguaio. Com esse intuito, observou-se o emergir de uma ‘onda’ de nacionalismo que “existía de alguna manera en los corazones y mentes de los paraguayos” (Pozzo 2008, 25). Por essa via, podemos sugerir que na contemporaneidade, a memória das principais guerras do Paraguai, bem como o discurso nacionalista se materializou com força, após a suspensão do Paraguai do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) em 2012, em razão do impeachment de Fernando Lugo. Segundo Cristaldo (2013, 40) esse fato “en la vida política paraguaya reviven con gran fuerza ideas nacionalistas, que nos recuerdan tanto heroicas páginas de la historia paraguaya como oscuras épocas del pasado reciente”. Verificamos assim, a manifestação de discursos nacionalistas que vão ao encontro da conjuntura atual, atualizando suas ressonâncias jornalísticas.

A seguir, procederemos à análise da FD subimperialismo brasileiro. Essa FD traz quatro famílias parafrásticas, que estão compostas, no total, por 113 SDs.2 Observamos que há um processo dialógico entre as matérias e os comentários de quatro FD (Tabela 1).

Tabela 1

Famílias parafrásticas correspondentes à formação discursiva.

Famílias parafrásticas Sequências discursivas nas matérias Sequências discursivas nos comentários

Oikopata ñandehegui rapai 11 9
Em defesa da soberania do Paraguai 11 12
Proteção do território 31 31
Memória da guerra 0 8
Total 53 60

Apresentamos inicialmente a análise discursiva das matérias para, na sequência, apresentar a análise discursiva dos comentários dos leitores.

Oikopata ñadehegui rapai (Seremos brasileiros)

Análise das matérias

A construção da hegemonia brasileira é tecida em nosso corpus a partir do uso de substantivos como hegemonia, onipresença, grandeza e poderio que permeiam explícita ou implicitamente o texto. Com eles, destaca-se o protagonismo econômico do Brasil na região e no mundo. Apesar de a manchete de uma matéria apontar o baixo crescimento do Brasil nos últimos anos, enfatiza-se a hegemonia brasileira: “Bajo crecimiento y hegemonia” (SD222, manchete). Em todas as SDs que compõem essa matéria, podemos perceber que há exaltação da “grandeza” e do protagonismo brasileiro. A “hegemonia” brasileira na América Latina é mais expressiva ainda no Paraguai, pois converte-se em “uno de los mayores países de tránsito de mercaderías con destino a otras partes del mundo” (SD224).

Produz-se o efeito de dependência econômica do Paraguai e se alerta para as flutuações econômicas como fatores pelos quais a economia nacional precisa estar regida, como podemos observar: “No en balde, las autoridades del Fondo Monetario Internacional no dejan de advertirnos que pongamos lupa en el desarrollo de Brasil, porque de él depende en gran medida el nuestro” (SD227).

A ubiquidade do Brasil, também, se materializa no número de investidores e nas terras paraguaias ocupadas por eles que, segundo o jornal, “hoy esas tierras están ocupadas casi en su totalidad por plantaciones extensivas de soja y maíz, que pertenecen en su mayoría a brasileños que se radicaron en el Paraguay o que viven en el Brasil, desde donde manejan el negocio del cultivo o simplemente arriendan a otros ‘brasiguayos’ sus parcelas” (SD233).

Essa onipresença desloca-se do campo econômico para o campo cultural. A língua portuguesa seria a terceira mais falada depois da espanhola e do guarani, línguas oficiais do país: “Tengamos presente que, después del castellano y del guaraní, el brasileño es el tercer idioma más hablado en Paraguay” (SD228). Assim, a hegemonia brasileira é econômica e cultural, como demonstra o discurso do jornal. Também é preciso lembrar de que “el Brasil fue, es y seguirá siendo un factor clave en nuestro propio proceso de desarrollo” (SD267), mostrando o fator-chave que esse país constitui para a sociedade paraguaia.

Análise dos comentários

O discurso do sujeito leitor está permeado pelos verbos usar, abusar, submeter e pelos substantivos subimperialismo, bandeirante, rapai,3sojero. A hegemonia brasileira evidencia-se pela influência do Estado brasileiro sobre o Estado paraguaio, tal sentido vai ao encontro de uma das teses apontadas por Bandeira (2008) quanto às características de um país imperialista.

Não obstante, o sujeito leitor vai além, pois ao empregar o verbo submeter (someter), reclama pela condição de servilismo do Paraguai perante o Brasil, pois para ele “el propio ‘estado’ Paraguayo sometido a los sojeros y ganaderos en su mayoría extranjeros” (SD35). Por um lado, vemos que, no discurso do leitor, o problema não radica só em que o Estado esteja submetido aos “grandes produtores”, senão em que maioria dos grandes produtores seja de origem estrangeira, em especial—até mesmo pelo contexto da matéria comentada—brasileiros. Por outro lado, o uso do verbo someter—embora tenha a mesma raiz etimológica do verbo submeter em português, e guarde relação de equivalência para efeitos de tradução em espanhol—, constatamos que o verbo em espanhol chega a ser mais preciso que em português para o contexto de discurso do leitor.

Tendo em vista que lidamos com três línguas, a portuguesa, a espanhola e o guarani, consideramos apropriado o uso e a comparação entre os sentidos registrados em dicionários de língua espanhola e de língua portuguesa. Sem olvidar que os sentidos são fluídos, regem-se pelo uso que o falante faz da língua e que estão sujeitos à variação e mudança linguística. Ao cotejar dicionários (RAE online; Aulete online; Aurélio online; Michaelis online; Priberam online) percebe-se uma maior adequação ao sentimento de repulsa ao comportamento do Estado paraguaio perante o domínio estrangeiro.4 O verbo someter, segundo o dicionário da RAE, em sua primeira acepção, registra “sujetar, humillar a una persona, una tropa o una facción,” e, na segunda acepção, registra “conquistar, subyugar, pacificar un pueblo, província”. Sendo assim, para o leitor, a hegemonia brasileira implica na sujeição e na humilhação do povo paraguaio, além de trazer implicitamente o sentido de colonização do país.

A sujeição do Estado é tal que o estrangeiro não cumpre as normas tributárias: “vienen a paraguay porque acá no pagan impuestos, no nos tomes por estúpidos basura bandeirante” (SD81). A sujeição do Estado é tal, que “jamás este gobierno de Cartes se opondrá a los ABUSO$ de ningún colono” (SD174). O verbo abusar, semanticamente, remete ao uso excessivo, injusto e indevido de algo ou de alguém. No contexto de uso, não é inocente essa aposição de cifrão ao fim da palavra abuso, tampouco a referência a Horacio Cartes, presidente do Paraguai. Em palestra proferida em 18 de abril de 2014, com a finalidade de atrair empresários brasileiros, Cartes se utilizou da expressão “usem e abusem do Paraguai”, provocando críticas, justamente por ter um viés entreguista e submisso aos interesses do Brasil. Segundo os leitores, os estrangeiros (brasileiros em especial) utilizam excessivamente uma terra que não lhes pertence, injusta e indevidamente, sem realizar os pagamentos dos tributos ao Estado paraguaio.

O discurso do sujeito leitor também produz o sentido da hegemonia cultural brasileira assinalada pelo sujeito jornalista. O resultado do contato linguístico é visto como fenômeno negativo, como a concretização do imperialismo brasileiro. Tais sentidos foram registrados por Albuquerque (2005), que constatou o fator linguístico como um dos principais pontos de conflito. A disputa travada no campo econômico, atrelada à posse da terra, desloca-se para o campo simbólico, onde o aspecto linguístico torna-se um dos principais pontos de conflito, pois atinge diretamente a identidade nacional paraguaia.

O Paraguai possui duas línguas oficiais, o espanhol e o guarani, este último é considerado uma das formas de expressão do nacionalismo paraguaio. Para os leitores, a variedade gerada pelo contato linguístico nas regiões fronteiriças do Paraguai revela outra forma de servilismo, “en la mayor parte de Ciudades fronterizas (y no tanto) hasta las AUTORIDADES por chupamedias, tienen (o tratan de tener) TONO BRASILEñO al HABLAR” (SD220). O resultado desse contato linguístico, inerente aos espaços fronteiriços, representa para o leitor uma postura entreguista das autoridades paraguaias.

O sujeito leitor também se utiliza da língua guarani para denunciar que “oikopata ñandeheguy rapai” (SD113), cujo significado é “seremos brasileiros”. Essa expressão, de alguma forma, sintetiza e traduz esse rechaço pelo que é visto como imposição da cultura brasileira. A hegemonia econômica e cultural representa uma ameaça à identidade paraguaia. O uso do guarani para denunciar o imperialismo brasileiro é uma forma de mostrar que língua é resistência. Embora as políticas linguísticas para o guarani tenham sido desfavoráveis nos tempos da independência do Paraguai, a língua foi um dos elementos para construir coesão cultural e identitária no contexto das duas guerras que atravessou o país, a guerra da Tríplice Aliança e a Guerra do Chaco. Utilizado como estratégia de guerra, uma vez que os estrangeiros não o compreendiam. Pozzo (2007) evidenciou o uso bélico da língua nos jornais durante a Guerra da Tríplice Aliança. O guarani passou a simbolizar a coragem, a bravura e a resistência. Sendo assim, podemos inferir que a recorrência à língua indígena para denunciar a hegemonia brasileira é uma forma de defesa da invasão do Outro.

Por fim, lembrando que os sentidos estão disponíveis e que o sujeito se apropria deles, acreditando ser o dono do seu dizer (Orlandi 2013), discorreremos sobre os usos dos substantivos bandeirante e rapai. Recordamos que Saussure (2006) chamaria a atenção para a dicotomia entre diacronia e sincronia. Um estudo diacrônico permite a análise da mudança de uma língua através do tempo que permite observar suas transformações fonéticas, morfológicas, sintáticas e semânticas. Já o estudo sincrônico permite a análise de uma língua num determinado recorte temporal. Nesse sentido, há que se destacar que o falante faz um uso sincrônico das palavras, sem necessariamente refletir sobre os significados que lhe antecedem. Além disso, há que se considerar que a semântica está em constante transformação. O novo uso que o falante de uma língua faz de uma palavra “impõe-se aos indivíduos pela sujeição do uso coletivo” (Saussure 2006, 108).

Desse modo, no contexto de disputa simbólica, as palavras são ressignificadas, dando-lhes um sentido pejorativo. A palavra rapaz, em português, que significa “moço”, ao ser apropriado pelos paraguaios, originou o termo rapai, significando “ignorante”, “inculto” (Albuquerque 2009). Esse sentido pode ser observado no emprego das palavras rapai nas seguintes SD: “otro elemento más en el juego del sub-imperialismo rapaiz (SD3), “oikopata ñandeheguy rapai” (SD113).

Já o uso da palavra bandeirante, bastante recorrente nos comentários dos leitores, ele também foi constatado por Albuquerque (2005) no discurso dos sacerdotes vinculados ao movimento camponês e em alguns intelectuais paraguaios que estudam o processo migratório brasileiro no Paraguai. Bandeirante, palavra usada para caracterizar os expedicionários que formavam parte de uma mesma bandeira (Aulete online), era a designação atribuída aos paulistas que adentravam os territórios americanos a partir do século XVI numa atividade de rapina colonial, estabelecida no propósito de explorar ou colonizar. Nos dias atuais, o uso da palavra bandeirante pelos paraguaios constitui-se em recurso utilizado para denominar os migrantes brasileiros, trazendo no seu bojo o sentido de invasão e apropriação de terras, como pode ser observado a seguir: “Vienen a paraguay porque acá no pagan impuestos, no nos tomes por estúpidos basura bandeirante” (SD81). Entendemos que a SD evoca o caráter bélico e expansionista atribuído aos migrantes brasileiros nos dias atuais.

Em defesa da soberania do Paraguai

Análise das matérias

O conceito de soberania é considerado como um dos pilares fundamentais da concepção moderna de Estado-Nação (Miranda 2004). Garante a autodeterminação dos estados nacionais, “o advento do próprio Estado moderno coincide, precisamente, com o momento em que foi possível, num mesmo território, haver um único poder com autoridade originária” (Bastos 1999, 80). Nos últimos anos, a questão da soberania nacional ressurgiu com grande força, no Paraguai, no contexto da deposição do ex-presidente Fernando Lugo em junho de 2012. Por ocasião do juízo político, invocando a cláusula democrática, Brasil, Argentina e Uruguai suspenderam a participação do Paraguai no Mercosul. Tal fato foi considerado, pelos defensores da legalidade do procedimento do impeachment, uma “nueva triple alianza”, em alusão à Guerra do Paraguai (Cristaldo 2013). O discurso da defesa da soberania e da não ingerência de outros países nas questões internas do país motivaram diversas discussões e questionamentos.

As bandeiras da independência e da soberania são questões que perpassam o discurso do sujeito jornalista, principalmente quando se trata do país vizinho, o Brasil. A linha que separa o Estado paraguaio do Estado brasileiro faz-se mais tênue ao considerar a quantidade ostensiva de migrantes brasileiros e seus descendentes instalados no país há mais de três décadas.

A partir dessas condições de produção de sentidos, podemos constatar que, no discurso do jornal, aparece o uso recorrente dos verbos intervir, incidir e denunciar, os quais convergem para a construção do sentido de ameaça à soberania paraguaia.

Há neles a defesa da soberania do país, assim como do direito à autodeterminação e da proteção dos interesses nacionais, rechaçando-se a interferência de outros Estados nas questões internas. O emprego dos verbos denunciar, incidir e intervir faz-se mais presente ainda na construção desse sentido:

López Perito denuncia intromisión de Brasil en asuntos internos. (SD140) (manchete)

El senador de Avanza País (AP), Miguel Ángel López Perito, denunció ayer ante el plenario de la Cámara Alta una supuesta intromisión de Brasil en asuntos internos del país. (SD141) (submanchete)

La nota que data del 2011 fue exhibida por el senador como una prueba de que el vecino país quiere incidir en la política interna. (SD146)

Como menciona Orlandi (2013), por meio do esquecimento—que é quando um sujeito ignora como um discurso se constituiu—, ele considera-se a origem do seu dizer. Segundo a autora, o sujeito não percebe que seu discurso remonta a sentidos já existentes, pois para que seus dizeres façam sentido é preciso que elas já signifiquem.

Análise dos comentários

O sujeito leitor, também reproduz o discurso da defesa da soberania paraguaia ao recorrer ao uso do verbo avassalar, que semanticamente traz os sentidos de sujeitar, render e submeter a obediência: “O sea por eso tenemos que dejar nomas que nuestro país sea avasallado por los otros países?” (SD149).

É um sentido anterior, que precede ao sujeito leitor do jornal. Esses sentidos continuam presentes no discurso do sujeito leitor, que vê o Brasil como uma ameaça à soberania paraguaia.

O território paraguaio precisa ser protegido dos estrangeiros

Análise das matérias

O processo migratório brasileiro deu-se no contexto das fronteiras de expansão agrícola brasileira e no contexto da política de Stroessner, que consistia em atrair agricultores e empresas brasileiras ao Paraguai. Com esse intuito, disponibilizaram-se para a venda as terras fiscais e, ao contrário do Brasil, não existia no Paraguai uma lei fronteiriça, que delimitasse a venda de terras a estrangeiros. Nos dias atuais, a posse das terras fronteiriças é outro fator de conflito entre migrantes brasileiros e o movimento sem-terra do Paraguai. Sinteticamente, pode-se apontar o argumento de Albuquerque (2005), ao assinalar a bandeira do movimento sem-terra paraguaio atinente à necessidade de recuperar as terras malhabidas (ilegais) em mãos de brasileiros. De acordo à Comissão de Justiça e Verdade do Paraguai, são terras que foram destinadas à Reforma Agrária, entretanto, foram apropriadas por pessoas ou entidades não favorecidas. Podemos observar, assim, que a questão da legalidade da posse de terras atravessa o discurso do jornal, construindo o sentido da necessidade de proteção do território paraguaio dos estrangeiros.

Quando entra em questão a discussão pela legalidade das propriedades dos estrangeiros, o discurso do jornal costuma expor as documentações e respectivas nacionalidades dos proprietários:

Tal es el caso de dos hermanos que nacieron en el Brasil y que obtuvieron un lote cada uno en la citada colonia, a donde el Indert pretende ahora trasladar a 550 familias de carperos que se encuentran apostados en Ñacunday, frente a las tierras del Rey de la soja, Tranquilo Favero. Ellos son Antonio Ángelo y Vilmar Aparecido da Silva […] Al igual que su hermano, en el Indert y en su cédula policial figuran que cuenta con nacionalidad brasileña. (SD122) (itálico nosso)

Embora o proprietário da terra conte com a documentação pessoal paraguaia, “en su legajo consta que nació en Cafelandia, Estado de Paraná, Brasil, y que actualmente reside en la colonia 15 de Agosto, en Itaipyte Norte, Alto Paraná” (SD121). Por não ter a nacionalidade paraguaia, a legalidade da posse das terras é colocada em questão: “Al igual que su hermano, en el Indert y en su cédula policial figuran que cuenta con nacionalidad brasileña” (SD122). O destaque dado à documentação pessoal dos colonos é forma de provar que não são paraguaios e, portanto, é possível notar que, justamente por isso, não lhes são reconhecidos os mesmos direitos dos nacionais. Assim, percebe-se, pela escolha linguística, um posicionamento quanto à titularidade de direitos, em especial o de propriedade. A identificação da nacionalidade brasileira é utilizada para alimentar a desconfiança quanto à origem da aquisição das propriedades.

A preocupação com a ocupação de terras por parte de migrantes brasileiros ou “brasiguayos” mostra-se mais expressiva, pois “La mayoría son ‘brasiguayos’. Hoy cada hectárea vale más de 10 mil dólares” (SD123). Essa preocupação não se limita à propriedade da terra por parte dos estrangeiros, mas também se estende a seus descendentes, ou seja, o problema não radica só em que haja concentração de terras nas mãos de poucos senão que estes tenham, predominantemente, ascendência brasileira: “El ente agrario adjudicó y tituló en la citada colonia quedaron en poder de siete clanes familiares, la mayoría pertenecientes a hijos de inmigrantes brasileños o ‘brasiguayos’” (SD125). Tal problemática pode ser evidenciada na SD a seguir:

No quiero entrar a confrontar ni a debatir sobre una cuestión de nacionalidad ni mucho menos, porque el Estatuto Agrario es claro en ese sentido: siempre y cuando sean ciudadanos naturales la igualdad es para todos. Pero llamativamente siempre se dan títulos solamente a personas de origen no paraguayo, expresó Cárdenas. (SD126) (itálico nosso)

Embora, implicitamente, se reconheça que os proprietários possuem a nacionalidade paraguaia, seus direitos são questionados pela ascendência que possuem, visto que os beneficiários seriam de origem estrangeira.

Análise dos comentários

Há uma frente de expansão invasora brasileira para os leitores. As extensões de terras que estariam nas mãos de imigrantes brasileiros e de seus descendentes tirariam o caráter nacional do território: “No son sojales paraguayos porque son extranjeros que ni dejan aca sus ganancias, y para colmo ni pagan impuestos” (SD16) (itálico nosso). Tal fenómeno foi estudado por Souchaud (2007, 319) e designado de “espaço brasileiro” e “espaço brasiguayo”. Sob tal perspectiva, “El espacio brasiguayo, lejos de asociar a brasileños y paraguayos en un eclecticismo cultural, se afirma en sus ciudades y sus campos, para su lusotropismo”. Nesse sentido, o sujeito leitor atribui a responsabilidade da ocupação brasileira ao próprio governo paraguaio, que seria conivente com a ‘invasão’ brasileira: “Gente con ese pensamiento estupido gobiernan nuestro pais, regalandole a cualquier mafioso narco que venga del vecino pais es mas las tierras donde se cultivan la droga son alquiladas en su mayoria por estos perros” (SD57). Além de “invasores”, os migrantes estariam vinculados ao narcotráfico.

Desse modo, os substantivos invasor e evasor tecem a trama da denúncia de uma possível “anexação” do Paraguai. Para o sujeito leitor, imigrante é sinônimo de “Colono invasor y evasor de mierda, ore kuerairo pende hegui Karajo” (estamos cansados de vocês; SD53). O imigrante é visto pelo duplo desrespeito à ordem jurídica, primeiro invade a terra, que é paraguaia, e segundo não paga os tributos. Vê nos proprietários de terra exploradores de mão de obra, seja porque a origem da imigração brasileira remete ao passado ditatorial, não se lhes reconhece a legitimidade dos direitos.

Em relação a esse ponto, o próprio neologismo brasiguayo é visto como forma de mascarar a “invasão” brasileira e a “anexação” do território paraguaio, pois “si se sigue dando excusas como la decir brasiguayos, se viene la anexión, en unas décadas” (SD18). Produz-se o sentido sobre o território paraguaio como um lugar homogêneo, onde não há lugar para o brasiguayo: “Se nos conoce como colonia brasilera en el exterior, bem vindo ao novo estado Brasiguai” (SD76). O sujeito leitor recorre ao uso do português para marcar a presença dos brasileiros no território paraguaio. O reconhecimento da identidade brasiguaya teria um espírito entreguista. Os imigrantes, além de invasores, são também chamados de “nazi bandeirante y ustedes todas las tierras productivas, manga de colonos invasores de mierda” (SD51) (itálico nosso). Nessa SD, há dupla imputação de intencionalidade brasileira de invasão, pois a construção nazi-bandeirante alude tanto ao expansionismo promovido pelos históricos bandeirantes quanto pelo nacional-socialismo alemão.

Sendo assim, perante essa possível anexação das terras paraguaias ao Brasil, podemos encontrar sentidos que, uma vez postos em diálogo, constroem soluções para o problema da perda de território paraguaio. Uma delas seria “evitar vender las tierras a extranjeros, dar preferencia a los paraguayos” (SD36). Outra saída seria “recuperar la tierra del estados que están manos de brasileros, que por ley, no le corresponde basta de bandeirantes, en nuestra tierra” (SD195). Essas soluções passam pela exclusão do Outro, pela redução da ambiguidade, pela restrição de direitos a estrangeiros. A seguir, apresentaremos a última família parafrástica, na qual predominam os sentidos sobre as memórias da guerra.

Memórias da guerra

Análise dos comentários

A família parafrástica não conta com ocorrências nas matérias analisadas. Sua presença nos comentários, no entanto, nos parece ineludível.

Acontecimentos históricos que marcam o imaginário paraguaio são apreendidos pela memória discursiva e se materializam na discursivização do sujeito leitor. Os discursos sobre a guerra da Tríplice Aliança se atualizam nos dizeres desses leitores, reforçando que “nunca vamos a olvidar mono brasilero, asi que acostumbrate, y si no te gusta, volvete a tu puta favela y anda baila funk con el PCC” (SD72) (itálico nosso). O uso do substantivo mono para se referir aos brasileiros vem desde os tempos da Guerra do Paraguai. Naquela época, o Brasil ainda era um império escravista, os jornais paraguaios se utilizavam de caricaturas para retratar as tropas brasileiras como monos, ou seja, macacos em língua espanhola. Os principais alvos eram o Imperador Dom Pedro II e o Duque de Caxias, estes eram apelidados como “Imperador dos negros”, “Imperador dos macacos”, “Imperador das bananas”, “Imperador de incêndios e escravos”, “O grande macaco” (Diaz 2009). O sujeito leitor, para frisar que a guerra jamais será esquecida, se utiliza das designações jocosas atribuídas naquela época ao inimigo. Não só demarcando as fronteiras entre brasileiros e paraguaios senão colocando o Outro na posição de inimigo.

Outro sentido que emerge é o do migrante brasileiro como algoz dos paraguaios. A matança de paraguaios por parte dos brasileiros não teria terminado com o fim da guerra da Tríplice Aliança. Esses migrantes, segundo o sujeito leitor, “están practicando como matar PARAGUAYOS, especialmente aquellas familias campesinas que están en el ‘camino de la NARCO-SOJA’ y se niegan a abandonar la PATRIA que nos dejaron nuestros mayores, mujeres y niños que fueron asesinados por la Triple Alianza” (SD67) (itálico nosso). Nessa sequência faz-se referência às mortes de homens, mulheres e crianças durante a guerra para tratar das mortes, atuais, que estão sendo geradas pelos migrantes brasileiros.

Em tal contexto, é rejeitada a condição de que as terras paraguaias sejam ocupadas precisamente por migrantes brasileiros. Desse modo, a presença dos brasiguayos no Paraguai atualiza as memórias da guerra travada com o Brasil. Assim como na guerra, os migrantes brasileiros, mais uma vez, invadem as terras paraguaias “y ni como estos brasileños que se han ya apoderado de gran parte de la tierra paraguaya en la guerra del 70 que les de un pedazo tierra a sus compatriotas, FAVERO EL REY DE LA SOJA el tiene mucha tierra” (SD129).

Considerações finais

Apresentamos resultados parciais de uma investigação em que analisamos a produção de sentidos sobre o “brasiguayo” na mídia paraguaia, tendo como objeto de estudo as matérias jornalísticas e comentários de leitores do jornal Última Hora na versão online. Compreendemos que a produção discursiva está intrinsecamente ligada aos processos socioculturais e históricos, o que nos permite perceber que não podemos desvinculá-la da construção social das identidades. Essas construções afetam e são afetadas pelas produções discursivas, pois conforme a visão da AD, o discurso também provém de outros dizeres. Os discursos fazem parte de uma rede de sentidos e o sujeito discursivo deles se apropria, acreditando ser a origem de seu dizer.

Com relação ao aspecto linguístico do nosso corpus, constatamos que, embora o Paraguai se declare um país bilíngue, por meio da sua Constituição Nacional, o jornal analisado mostra-se monolíngue, sendo as matérias analisadas escritas, exclusivamente, em língua espanhola. Já os leitores do jornal, ora se manifestam em língua espanhola, ora se manifestam em língua guarani, ora se manifestam em língua portuguesa ou fazendo uma mescla das línguas. Pudemos constatar que, por um lado, o sujeito leitor faz a defesa de uma identidade homogênea, entretanto, o registo da sua voz evidencia uma sociedade plurilíngue e multicultural. Nos comentários dos leitores, percebemos que a língua guarani é utilizada como demarcador de fronteiras e de defesa da identidade nacional, o que vai ao encontro das pesquisas desenvolvidas por Albuquerque (2005). Assim, uma das maneiras de reconhecimento da identidade nacional se dá por meio do uso da língua guarani. Em nossa análise dos comentários, observamos que o sujeito leitor se utiliza da língua nativa para denunciar o que considera ser uma possível “invasão brasileira”, para acusar as infrações das leis paraguaias que são cometidas pelo estrangeiro, para denunciar o “projeto subimperialista do Brasil”, assim como para defender os interesses nacionais do país.

Entendemos, ademais, que a denúncia de um “projeto subimperialista do Brasil” está operacionalizada por meio de uma formação imaginária. Em tal processo, o jornalista traçaria o perfil do seu leitor, tendo assim um leitor imaginado que o autoriza a proferir determinados dizeres. Do mesmo modo aconteceria com o seu leitor, que teria um perfil imaginado do jornalista, de quem espera determinados dizeres ou posicionamentos. Recordamos a Grigolleto (2007) quando refere que, para a AD, sujeito é posição. E posição que está sujeita à situação ou ao lugar que o sujeito ocupa no mundo. É assim que a posição social/empírica assujeita os dizeres do sujeito discursivo.

Por fim, há que se constatar que a análise do discurso sobre o brasiguayo permitiu observar a polifonia na produção de sentidos, que aglomera não apenas o discurso produzido pelo sujeito jornalista, senão também o discurso produzido pelo sujeito leitor, cuja voz é compartilhada entre o sujeito leitor paraguaio e o sujeito leitor “brasiguayo”. Isso permite verificar que, embora o brasiguayo não tenha sua voz registrada no jornal, ele tem a sua voz registrada nos comentários, o que lhe outorga a possibilidade de ali autonomear-se e de contribuir para a produção de sentidos sobre o que seria ser paraguaio ou brasileiro.

Embora exista uma diferença importante entre as notícias veiculadas e o registro de sua recepção por parte dos comentários dos leitores, torna-se flagrante na análise realizada que a percepção da pretensão de domínio econômico do Brasil encontra-se em questionamento no contexto jornalístico paraguaio e que uma ideologia do subimperialismo brasileiro vem a ser denunciada nos comentários dos leitores. Quanto ao caráter de leitura fragmentada das matérias e dos comentários, crítica ademais atribuída ao jornalismo de nossos dias, estimamos que não se pode desconsiderar a articulação discursiva entre o sujeito jornalista e o sujeito leitor.

A pesquisa está estabelecida a partir do estudo de gêneros distintos, tendo presente a existência da interação digital, o que diferencia nosso corpus do jornalismo impresso. Ao tratar-se de um estudo que buscou articular o gênero informativo ao gênero opinativo, alinhamo-nos aos pesquisadores do jornalismo online visto que, para a plena observação da produção de sentidos, é necessária a articulação entre o sujeito jornalista e o sujeito leitor, já que o primeiro tem em perspectiva o universo cultural e é ciente da necessidade de adequação, o que se reflete em maior ou menor grau de concordância nos comentários. Resta apontar que a concordância decorre da partilha de um substrato ideológico comum, pertinente ao subimperialismo brasileiro.

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Online appendix. DOI: https://doi.org/10.25222/larr.343.s1

Notas

1De acordo a Segovia (2010), o jornal faz parte do conglomerado empresarial A. J. Vierci, que alberga outros meios de comunicação, como o canal aberto Telefuturo, rádio FM La Estación e rádio FM Radio Urbana. Embora a tiragem do jornal não esteja confirmada pelas empresas verificadoras reconhecidas, considera-se que a tiragem diária do jornal esteja entre 15.000 e 25.000 jornais. 

2Família parafrástica” (FP), definida por Orlandi (2013, 36) como “aqueles pelos quais em todo dizer sempre há algo que se mantém, isto é, o dizível, a memória. A paráfrase representa assim o retorno aos mesmos espaços do dizer”. A paráfrase é o que garante essa memória. Em outras palavras, numa FP podemos identificar o retorno aos mesmos dizeres. Courtine (2016) o define como uma sequência linguística de dimensão sintagmática inferior ou superior a uma frase. 

3A palavra rapaz, em português, que significa moço, ao ser apropriado pelos paraguaios, originou o termo rapai, significando “ignorante”, “inculto” (Albuquerque 2009). 

4Dicionários acessados: Real Academia Española, Aulete digital: o dicionário da língua portuguesa na internet, Aurélio: dicionário online de português, Michaelis: dicionário brasileiro da língua portuguesa, Priberam dicionário. 

Informações sobre os autores

Maria Liz Benitez Almeida: doutoranda em letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É mestre em comunicação pela Universidade Federal de Santa Maria e mestre em comunicação para o desenvolvimento pela Universidad Nacional del Este. É professora bolsista de língua espanhola no Núcleo de Ensino de Línguas em Extensão da UFRGS.

Ada C. Machado da Silveira: professora titular da Universidade Federal de Santa Maria. Integra o quadro permanente do PPG Comunicação e é colaboradora do mestrado profissional em comunicação e indústria criativa da Universidade Federal do Pampa. Pesquisadora do CNPq, coordenadora do Grupo de Pesquisa Comunicação, Identidades e Fronteiras. Autora de livros como Jornalismo na linha de fogo: Coberturas em segurança pública (Armazém Digital, 2017), Conexões (trans)fronteiriças: Mídia, noticiabilidade e ambivalência (EdUnila, 2016) e Asombros identitarios (EAE, 2015). Investiga e orienta dissertações e teses e realiza tutoria de pós-doutoramentos nos temas de representações midiáticas, jornalismo e identidades contemporâneas.

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