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Reading: Histórias em quadrinhos: Um balanço bibliográfico desde a América Latina

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Book Review Essays

Histórias em quadrinhos: Um balanço bibliográfico desde a América Latina

Author:

Ivan Lima Gomes

Universidade Federal de Goiás, BR
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Abstract

Este ensaio revisa as seguintes obras:

 

Comics and Memory in Latin America. Organizado por Jorge Catalá Carrasco, Paulo Drinot e James Scorer. Pittsburgh, PA: University of Pittsburgh Press, 2017. Pp. vi + 262. $27.95 paperback. ISBN: 9780822964247.

 

El Eternauta, Daytripper, and Beyond: Graphic Narrative in Argentina and Brazil. Por David William Foster. Austin: University of Texas Press, 2016. Pp. xiii + 158. $24.95 paperback. ISBN: 9781477310854.

 

The Hernandez Brothers: Love, Rockets, and Alternative Comics. Por Enrique García. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2017. Pp. xiii + 175. $26.95 paperback. ISBN: 9780822964926.

 

Posthumanism and the Graphic Novel in Latin America. Por Edward King e Joanna Page. Londres: UCL Press, 2017. Pp. xii + 266. Open-access PDF: https://doi.org/10.14324/111.9781911576501. ISBN: 9781911576501.

 

Las historietas en Chile 1962–1982: Industria, ideología y prácticas sociales. Por Jorge Rojas Flores. Santiago: LOM Ediciones, 2016. Pp. 552. Ch$27.000. ISBN: 9789560006431.

How to Cite: Gomes, I. L. (2020). Histórias em quadrinhos: Um balanço bibliográfico desde a América Latina. Latin American Research Review, 55(1), 192–198. DOI: http://doi.org/10.25222/larr.718
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  Published on 19 Mar 2020
 Accepted on 06 Aug 2018            Submitted on 04 Mar 2018

Os estudos acadêmicos sobre histórias em quadrinhos (HQs) têm experimentado notável crescimento ao longo dos últimos anos. Tal constatação não é de toda nova, conforme atestam as introduções de boa parte dos vários livros lançados recentemente. Fato novo é o estabelecimento de um efetivo campo de estudos dedicado às HQs, sintetizado no mundo anglo-saxão pela expressão de língua inglesa comics studies. Trata-se de área bastante diversificada, pois permite o diálogo crítico entre estudiosos independentes e pesquisadores bem estabelecidos na academia; disciplinas como história, estudos de mídia, artes visuais, filosofia e teoria literária, entre outras; e revistas e editoras acadêmicas consagradas —que cada vez mais abrem espaço para artigos provenientes de pesquisas em torno das HQs— ao lado de uma série de periódicos acadêmicos dedicados exclusivamente à pesquisa sobre HQs. Listá-los seria tarefa exaustiva, mas uma sondagem rápida permite destacar os seguintes títulos: ImageText, Comicalités, Scandinavian Journal of Comic Art, International Journal of Comic Art, European Journal of Comic Art, Comics Grid e Journal of Graphic Novels and Comics.

Como resultado, são muitos os livros e coletâneas que partem de problemáticas tão distintas como memória, identidades, cotidiano e linguagem a partir das HQs, reconhecendo-as enquanto espaço privilegiado para se discutir tais temas. Ao mesmo tempo, há o interesse em consolidar o campo de estudos em torno das HQs através da elaboração de obras de referências, com destaque para uma série de readers contendo artigos fundamentais para a teoria e a história das HQs.1 Em comum, assumem as HQs como agentes sociais que, por meio de formas bastante específicas de narrar graficamente, introduzem questões fundamentais acerca de temas como diferenças sociais e identitárias. Tal aspecto é reforçado a todo momento pelos quadrinhos: a partir do recente atentado político contra Marielle Franco, militante de esquerda e vereadora da cidade do Rio de Janeiro, HQs produzidas por mulheres foram um meio privilegiado para dar visibilidade à tragédia urbana desta cidade —e, por extensão, do Brasil pós-golpe de 2016— que silencia corpos negros e busca excluir as mulheres da política institucional por meio da violência.2

Outro caminho para estudar as HQs passa por assumi-las não apenas como narrativas geradoras de representações, mas como objetos sob os quais circulam diversos agentes, como artistas, editores e leitores. No caso da produção latino-americana de HQs, campos como os da cultura material e de consumo e da história editorial têm trabalhado de maneira privilegiada com tal perspectiva, definindo o papel das revistas em quadrinhos para política cardenista de alfabetização do México dos anos 1930–1940 ou ainda as relações entre cultura material e HQ a partir das circulações transnacionais de uma personagem como Mafalda.3

Tal diversidade parece atestar a “indisciplina” como condição definidora dos assim chamados comics studies, conforme sustenta Charles Hatfield: pelas características próprias da linguagem das HQs, tal campo de conhecimento deve primar pelo constante desafio às convenções disciplinares —e suas respectivas fronteiras e delimitações— pré-estabelecidas e reforçadas pelos ditames da vida acadêmica.4 Sob um ponto de vista epistemológico, Hatfield sustenta que os comics studies deveriam possibilitar, pois, um exame permanente em torno de como, por quem e sob quais parâmetros o conhecimento é produzido no interior da academia.5

Até certo nível é compreensível que a vigorosa produção acadêmica que se produziu nos últimos anos centre esforços nos mundos anglo-saxão e franco-belga. Tratam-se de poderosas indústrias e escolas das HQs: os Estados Unidos podem ser creditados como o país que irá desenvolver a linguagem das tiras cômicas desde meados do século XIX, ao ponto de um crítico cultural apontá-las, já nos anos 1920, como um das “sete vigorosas artes do século XX”, além de terem consolidado o gênero narrativo super-heroico a partir de seu principal personagem, Superman.6 Já a escola franco-belga de desenho permitiu o estabelecimento de uma linguagem expressiva e detalhada —sintetizada na expressão ligne claire e que tem como marco fundamental a série Tintin, de Hergé— e que, a partir da conjunção de questões políticas e estéticas, tornou-se propícia para difundir-se em formatos como o álbum e o livro, prenunciando as graphic novels atuais.7 Porém, o debate mais recente aponta para reflexões que procuram inserir outros contextos e mercados de HQs num circuito transnacional de trocas econômicas, representações políticas e práticas culturais. A abordagem transnacional tem contribuído para análises que visam superar recortes estritamente locais e/ou nacionais.8

Sobre as pesquisas que analisam as relações entre HQs e América Latina, observa-se o esforço em tentar acompanhar a reflexão acadêmica que se desenvolveu recentemente em torno das HQs. Trata-se ainda de vertente incipiente, mas bastante promissora, vide as cinco obras que serviram de mote para o presente texto. O desafio passa por articular uma tradição de pesquisas locais sobre HQs às tendências e avanços observados na bibliografia, escapando da lógica do entusiasta e do fã para uma leitura mais crítica acerca do papel das HQs para possibilitar uma leitura própria sobre a América Latina. É curioso constatar o pouco contato entre as obras publicadas nos anos 1960 e 1970 por nomes como Moacy Cirne e Álvaro de Moya, no Brasil, e Oscar Masotta e Oscar Steimberg na Argentina, com as de um David Kunzle, cuja análise pioneira sobre HQs publicadas pela revista chilena La Firme durante os anos de Unidad Popular (UP) permanece pouco frequentada por pesquisadores latino-americanos até hoje.9 O mesmo pode ser dito acerca do importante trabalho de David William Foster, que publicaria estudo pioneiro sobre humor gráfico na América Latina ainda nos anos de 1980.10

O idioma segue como grande barreira a ser superada, mas as perspectivas são animadoras. Mais recentemente, centros, grupos de pesquisa e publicações dedicados às HQS —como exemplos, temos o “Observatório de HQs”, da Universidade de São Paulo, e “Narrativas Dibujadas: Historieta, Humor Gráfico y Animación”, da Universidad de Buenos Aires, bem como a revista acadêmica cubana Revista Latinoamericana de Estudios de la Historieta11— caminham lado a lado de pesquisadores e acadêmicos que, a partir de fronteiras disciplinares variadas, buscam analisar a especificidade da cultura latino-americana de HQs.

As cinco obras listadas no início do texto a um só tempo sintetizam tendências e apontam caminhos para os estudos das relações entre HQs e América Latina. Além de uma escrita fluente e de fácil leitura, os livros mantêm em comum uma saudável perspectiva interdisciplinar que procura aliar contribuições oriundas de diversos campos do conhecimento, como estudos culturais, estudos de mídia, história, sociologia e teoria literária, entre outros. Com exceção do trabalho de Rojas Flores, todos os livros foram publicados nos Estados Unidos e Europa, locais onde atuam os autores e editores das obras. Isso de forma alguma representa qualquer demérito, conforme demonstra toda uma vertente de pesquisas sobre o tema produzidas por nomes como Ana Merino, Anne Rubenstein, Frederick Aldama e Héctor Fernández L’Hoeste e Juan Poblete.12 Em todo caso, Las historietas en Chile 1962–1982: Industria, ideología y prácticas sociales é o trabalho que apresenta maior esforço em termos de levantamento documental e de dados em torno do fenômeno das HQs. Rojas Flores parte de um recorte estritamente nacional e procura pensar o desenvolvimento da indústria das HQs chilenas ao longo dos anos 1960 e 1970.13 O recorte se justifica a partir de questões de ordem política e cultural: enquanto politicamente o Chile passou de uma democracia à ditadura, neste período a indústria de HQs também observou notável crescimento, sobretudo a partir de editoras como Zig-Zag (71–75), Lord Cochrane (75–78) e Quimantú (269–278). O autor lança mão de inúmeras revistas, notícias veiculadas na imprensa e entrevistas com artistas e vendedores para compreender a produção, circulação e consumo de HQs no Chile, articulando história, sociologia e estudos visuais.

Ainda que não deixe de pontuar a presença de HQs estrangeiras publicadas no país, o foco do livro de Rojas Flores reside na produção chilena de HQs e em como o país se apropriou de forma original desta linguagem para abordar temas de relevo, conforme se depreende da análise visual das HQs e de suas representações de temas políticos e cotidianos caros ao contexto do país. Aponta para conclusões que articulam análise de conteúdos aos debates políticos e intelectuais suscitados a partir das HQs nos anos pós–Segunda Guerra, assumindo-as enquanto fenômeno de massas. Com isso, percebem-se as transformações e permanências, como no caso das representações femininas ao longo dos anos 1960–1980 onde, mesmo no governo de esquerda da Unidad Popular (UP), muitos estereótipos envolvendo personagens femininos não foram enfrentados a contento. Ao mesmo tempo, ainda sobre a UP, percebe-se que não havia nenhum personagem que encarnasse em si o ideal de “homem novo”, tão caro ao projeto socialista chileno. Acrescentaria, porém, que tal projeto era encampado como um todo pela editora do governo, Quimantú, a partir de uma política de valorização da leitura, dos impressos e de novas narrativas e personagens. Seja como for, o livro de Rojas Flores é uma obra de referência para qualquer estudioso interessado numa interpretação criteriosa e de fôlego sobre o “mundo das HQs” no Chile.14

Por seu recorte nacional, Las historietas en Chile é pouco propositivo em interpretações de maior fôlego em torno da especificidade que o contexto e a vida cultural latino-americanos podem imprimir às HQs. Tal questão aparece mais nas outras quatro obras, que dialogam de forma mais direta com o campo dos estudos culturais a partir de recortes monográficos bem específicos, como um autor ou uma série de HQs. É o caso de Comics & Memory in Latin America, organizada por Jorge Catalá Carrasco, Paulo Drinot, e James Scorer. A seleção de artigos abordando HQs a partir de realidades nacionais bem específicas permitiu construir uma obra que ressalta, a partir das articulações entre história e política, a relevância histórica das HQs dotada de legitimidade para abordar, de maneira original, questões de ordem política e social como desigualdades, autoritarismos e a difícil construção democrática após anos de ditaduras.

A coerência dos artigos é dada pela introdução da obra, que procura pensar a história das HQs na região a partir de uma audaciosa cronologia, ao mesmo tempo em que as situa como agentes na composição da memória cultural e nas disputas políticas que se deram em torno delas. Comics & Memory in Latin America lança mão de HQs editadas em formatos os mais variados —de tiras e revistas a graphic novels— para discutir temas como democracia e ditadura na Argentina, Nicarágua sandinista, memória do Sendero Luminoso ou a identidade urbana nas favelas do Rio de Janeiro. Com isso, a leitura do conjunto de artigos da obra dá conta de apontar a relevância de um meio de comunicação de massas como as HQs para representar e moldar a memória coletiva latino-americana.

A proposta de Comics & Memory in Latin America acaba por ressaltar a temática das representações dos conflitos políticos ao longo da obra, deixando de lado o debate em torno da memória a partir das narrativas (auto)biográficas e das escritas de si, por exemplo.15 Em todo caso, pelo conjunto da obra, torna-se desde já uma referência obrigatória a todo pesquisador interessado em compreender a história recente das articulações entre arte, política e identidades culturais nas HQs latino-americanas.

Relações análogas também podem ser percebidas na obra de David William Foster, “El Eternauta,” “Daytripper,” and Beyond: Graphic Narrative in Argentina and Brazil, ainda que com pretensões bem mais modestas. De fato, Foster não pretende estabelecer nenhuma interpretação que leve a restringir a produção recente de HQs ao espectro político. Seu foco reside na análise de discursos e representações produzidos por um conjunto de HQs argentinas —capítulos 1 a 5— e brasileiras —capítulos 6 a 10— deixando de lado questões históricas e sociológicas atinentes a tais “mundos das HQs” a favor de interpretações sobre questões recentes de relevo para cada contexto. Em relação ao caso argentino, Foster dedica-se a estudar o papel das “narrativas gráficas” para a construção da “cultura da redemocratização nos anos 1980” (xi, tradução minha) a partir de nomes como H. G. Oesterheld, Alberto Breccia e Juan Sasturain, entre outros.

Por se tratar de caso menos estudado por pesquisadores de HQs, a análise de graphic novels brasileiras a partir dos desafios que a modernização —sob a égide neoliberal— impôs a um país que ainda engatinha em termos de cultura política democrática após mais de vinte anos de regime militar é especialmente instigante.16 De fato, Foster defende que o conjunto de “narrativas gráficas” brasileiras analisadas “demonstra pouco interesse em lidar com problemas sociopolíticos relacionados à ditadura e redemocratização. Antes, encontram-se muito mais vinculados à agressiva cultura da modernidade que tem caracterizado o Brasil nas décadas recentes (xii, tradução minha)”, lidando com temas relacionados à globalização e trocas culturais. Tal afirmação é forte e, além de ser possível alegar que tais temas são abordados a partir do próprio legado da ditadura sobre a memória cultural do país,17 e certamente poderia ser rebatida a partir de várias HQs produzidas a partir da revista Chiclete com Banana nos anos 1980; da recente produção crítica de tiras cômicas produzidas por nomes como Laerte Coutinho, Luiz Gê, Daniel Lafayette; ou mesmo das graphic novels Ditadura no Ar, de Raphael Fernandes e Rafael Vasconcellos, e 1968 Ditadura Abaixo, de Teresa Urban e Guilherme Caldas. O mais problemático, porém, é que parte da confusão provavelmente reside no uso confuso do termo “narrativas gráficas”, que ora serve para designar HQs em geral, ora é utilizado para tratar de forma “retroativa” como graphic novels HQs consideradas de maior fôlego criativo por público e crítica e, por isso, editadas e consumidas hoje em dia como graphic novels. Em ambos os casos se torna impossível afirmar que as “apenas nas duas últimas décadas que emergiu um vasto inventário de narrativas gráficas brasileiras” (xii, tradução minha): seja sob a forma de tiras, seja sob o formato de revistas em quadrinhos, as HQs certamente disseram e ainda têm muito a se dizer sobre a vida cultural brasileira e, em especial, sobre a recente ditadura militar no Brasil. Isso para não falar dos problemas que tal uso retroativo do conceito impõe desde o ponto de vista da história da leitura, visto que impõe práticas de leitura associadas hoje às graphic novels a uma mídia que era consumida sob a lógica de tiras de jornal ou revistas de periodicidade semanal ou mensal, por exemplo.18 Ainda que se possa ponderar que a abordagem de um tema sensível como a ditadura militar brasileira seja mesmo mais incipiente quando pensamos em recentes graphic novels, os exemplos acima deixam claro que o cenário é bastante diferente daquele assumido como pressuposto pelo autor—. A despeito de tais ponderações e mesmo sem apontar para uma conclusão que articule uma interpretação de conjunto, as leituras sobre HQs argentinas e brasileiras que Foster promove em seu livro são originais e instigantes. Deverão compor o repertório bibliográfico de todo estudioso interessado em nomes como Breccia, Oesterheld e os irmãos Bá, por exemplo.

O esforço de Foster em articular “narrativas gráficas” a partir do formato das graphic novels sinaliza a importância desta última para a história das HQs. Ao contrário do livro de Rojas Flores, todos os quatro restantes lidaram, em maior ou menor grau, com os debates e questões introduzidos a partir dos anos 1960 por um conjunto de artistas associados a uma estética alternativa ao modelo comercial de revistas em quadrinhos e que se tornaria conhecida como underground comix.19 A partir daí, criaram-se as condições para o surgimento, anos depois, do formato graphic novel e do reconhecimento cultural obtido pelas HQs a partir do formato editorial do livro.20

Dentre os muitos nomes importantes para a passagem dos underground comix em direção às graphic novels, os irmãos Gilbert e Jaime Hernandez não podem ser ignorados por qualquer pesquisador interessado no tema desde um olhar latino. Descendentes de mexicanos, tornaram-se nomes fundamentais para a configuração de um olhar latino-americano sobre a produção de comics alternativos nos Estados Unidos dos anos 1980. Um estudo como The Hernandez Brothers: Love, Rockets, and Alternative Comics, de Enrique García, serve de preciosa introdução ao trabalho da dupla e lança luz, a partir dos aportes teóricos de nomes como Mikhail Bakhtin e Linda Hutcheon sobre temas como identidade e sexualidade, tão presentes nas HQs dos irmãos.

O livro expressa a um só tempo o amadurecimento e as possibilidades narrativas do estudo de HQs, ao posicionar-se sem pretensões de abranger toda a obra da dupla; antes, preocupa-se em “permitir a estudantes de nível universitário compreender elementos culturais básicos (indústria, conexões culturais, questões étnicas e de gênero) que são fundamentais para uma completa apreciação das revistas em quadrinhos e graphic novels dos Los Bros Hernandez” (8, tradução minha). O amadurecimento vem por se tratar de obra de perfil monográfico, centrada numa série de trabalhos produzidos por dois importantes nomes da cena cultural latina nos Estados Unidos, procurando pensar suas produções para além da lógica do “reflexo” da realidade, mas sim enquanto sujeitos que introduzem interpretações próprias sobre a vida cultura norte-americana. E o livro em si é criativo do ponto de vista narrativo e de sua organização interna, ao mesclar entrevistas e assumir a experiência pessoal como componente relevante para justificar o trabalho, na medida em que García posiciona-se como um fã de revistas e graphic novel, bem como um leitor de origem(ns) “portorriquenhas/hispânicas/latinas” (2, tradução minha). É de tal maneira que consegue destacar o caráter aberto e criativo dos irmãos Hernandez, cujos personagens se beneficiam da serialidade para se transformarem ao longo dos anos de publicação. Ambos tratam de maneira original a condição latina nos Estados Unidos a partir de procedimentos específicos: enquanto Gilbert forja uma espécie de “identidade transnacional” a partir da cidade fictícia de Palomar, Jaime elabora uma identidade latina multiétnica desde um viés metalinguístico com a série Las Locas, a partir da interação entre diferentes personagens e gênero narrativos das HQs, como os super-heróis e os comics alternativos.

Ainda que não sejam obras produzidas nos marcos da indústria latino-americana de HQs, é válido comentar a análise de García sobre os irmãos Hernandez por ela possibilitar refletir acerca dos desdobramentos culturais da condição latino-americana fora de seu contexto de origem. Ótimo seria se tivéssemos outros estudos bem delimitados e dedicados a pensar as circulações de artistas e identidades culturais latino-americanas em contextos como Europa e Ásia, por exemplo. Que o livro de García inspire outras reflexões do tipo.

Uma argumentação possível para justificar a ênfase nas graphic novels pode partir do fato de serem publicações lidas por um público crítico e sedento por histórias mais complexas, o que facilitaria, por sua vez, sua inserção nos meios universitários. Ou seja, as HQs teriam deixado de ser apenas uma leitura para crianças e se tornado uma arte dotada de questões próprias e merecedora de análises mais densas a serem desenvolvidas por pesquisadores especializados. Porém, é necessário introduzir uma razão também de ordem metodológica, relativa a acervos, arquivos de pesquisa e bibliotecas. Espécie de “objeto cultural não identificado”,21 as HQs praticamente desapareceram dos acervos públicos. Tal questão aparenta não ter chamado suficiente atenção da maior parte dos pesquisadores, que pouco questiona as dificuldades que essa situação impõe às pesquisas acadêmicas que poderiam vir a lançar mão das HQs como fonte e objeto de análise.22 Não parece ser por acaso que apenas o livro de Rojas Flores realiza levantamento documental de fôlego em busca de referências diretas e indiretas a HQs em jornais, revistas, arquivos e bibliotecas.

Tal ressalva não deve servir para deslegitimar o esforço das demais obras aqui resenhadas; antes, leva-nos a reconhecer que as graphic novels latino-americanas apresentam contribuições originais para o estudo das HQs na América Latina, constituindo-se efetivamente numa das tendências fortes da área. É o que se percebe da leitura de Posthumanism and the Graphic Novel in Latin America e sua original contribuição desde os debates epistemológicos relacionados ao pós-humanismo. Ao interpretar as HQs a partir de temas como modernidade, desenvolvimento tecnológico e imaginário urbano (18) —seguindo, aliás, discussões presentes em Comics & Memory in Latin America (4)—, King e Page sugerem uma leitura pós-humanista de um conjunto bem delimitado de graphic novels publicados nos últimos vinte anos em países como Argentina, Brasil, Chile, México e Uruguai. Com exceção do primeiro capítulo, o livro se organiza a partir de análises densas de uma ou duas graphic novels por capítulo. A conclusão busca integrá-las numa interpretação de conjunto, apontando a linguagem da graphic novel como um suporte privilegiado para pensar a América Latina desde uma perspectiva pós-humanista, ao mesmo tempo em que estes trabalhos contribuem para o debate epistemológico mais amplo em torno do pós-humanismo, ao assumirem a materialidade e a corporeidade como condições fundamentais para a produção de seus trabalhos. Para King e Page, o passado colonial e a dominação do corpo latino-americano a partir de um humanismo que se pretendia neutro e racional ajudam a compreender tal opção por um pós-humanismo crítico enquanto “ferramenta discursiva ambivalente a serviço de políticas emancipatórias” (212, tradução minha), para além de filiações claras a tradições políticas mais ou menos estabelecidas na América Latina, como o marxismo, feminismo e o pós-colonialismo.

O conjunto de obras analisadas aqui permite apontar o crescimento e maturidade do campo de estudos sobre HQs na América Latina. Desde uma escala global, temas como o desenvolvimento histórico desta forma de expressão desde um dado contexto específico, as relações entre arte e política na construção de identidades e leituras de mundo especificamente latino-americanas e a presença de autores e artistas que merecem constar em qualquer listagem de HQs são elementos muito bem estabelecidos pelos cinco livros aqui analisados. Por outro lado, o campo de estudos permanece aberto a outras contribuições, pois ainda há muito a ser feito. Como exemplos, uma análise de fôlego sobre as apropriações culturais de tiras cômicas em jornais e revistas ilustradas na América Latina e sua relação com a modernidade urbana de início do século XX; a permanência e expansão de revistas de super-heróis nos anos pós–Segunda Guerra Mundial, em paralelo ao desinteresse e queda de vendas que revistas deste gênero narrativo passam a observar nos Estados Unidos durante o mesmo período; HQs e gênero, tópico insuficientemente discutido por boa parte das obras; e histórias editoriais, acompanhadas de ampla documentação, de grandes casas do ramo das HQs, como EBAL, Abril e Novaro, entre outras. Pelo mérito dos trabalhos aqui analisados, resta-nos torcer para que inspirem outras reflexões do mesmo nível, de forma a contribuir para dar maior densidade à história e cultura das HQs na América Latina.

Notas

1Jeet Heer e Kent Worcester, orgs., A Comics Studies Reader (Jackson: University Press of Mississippi, 2009); Charles Hatfield, Jeet Heer e Kent Worcester, orgs., The Superhero Reader (Jackson: University Press of Mississippi, 2013); Ann Miller e Bart Beaty, orgs., The French Comics Theory Reader (Leuven: Leuven University Press, 2014). 

2Algumas das ilustrações e HQs produzidas foram compiladas e publicadas no Tumblr Políticas, que se posiciona como espaço que difunde “quadrinhos sobre política feitos por mulheres” (http://www.politicashq.tumblr.com). 

3Sobre HQs e cultura de consumo, cf. Ian Gordon, Comic Strips and Consumer Culture, 1890–1945 (Washington, DC: Smithsonian Institution Press, 1998); para uma história editorial das HQs, cf. Ivan Lima Gomes, Os novos homens do amanhã: Projetos e disputas em torno dos quadrinhos na América Latina (Brasil e Chile, anos 1960–1970) (Curitiba: Prismas, 2018); sobre o caso mexicano, cf. Armando Bartra, “The Seduction of the Innocents: The First Tumultuous Moments of Mass Literacy in Postrevolutionary Mexico,” In Everyday Forms of State Formation: Revolution and the Negotiation of Rule in Modern Mexico, org. Gilbert Joseph e Daniel Nugent (Durham, NC: Duke University Press, 1994), 301–325; e, para uma análise das circulações transnacionais ligadas à personagem de Quino, cf. Isabella Cosse, Mafalda: Historia social y política (Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2014). 

4Charles Hatfield, “Indiscipline, or, The Condition of Comics Studies”, Transatlantica, no. 1 (September 2010), http://journals.openedition.org/transatlantica/4933. 

5Hatfield, “Indiscipline”, 15. 

6A ideia das tiras cômicas como arte do século XX encontra-se em Gilbert Seldes, “The Vulgar ‘Comic Strip”, en A Comics Studies Reader, org. Jeet Heer e Kent Worcester, 46–52. As HQs de super-heróis enquanto gênero narrativo se encontram bem discutidas em Robin S. Rosenberg e Peter Coogan, orgs., What Is a Superhero? (New York: Oxford University Press, 2013). 

7Thierry Crépin, Haro sur le gangster: La moralisation de la presse enfantine, 1934–1954 (Paris: CNRS Éditions, 2001); Sylvain Lésage, “L’effet codex: Quand la bande dessinée gagne le livre. L’album de bande dessinée en France de 1950 à 1990” (PhD diss., Université de Versailles Saint-Quentin, 2014). 

8Shane Denson, Christina Meyer, e Daniel Stein, orgs., Transnational Perspectives on Graphic Narratives: Comics at the Crossroads (London: Bloomsbury, 2013); Casey Brienza, Manga in America: Transnational Book Publishing and the Domestication of Japanese Comics (London: Bloomsbury, 2016); Monica Chiu, org., Drawing New Color Lines: Transnational Asian-American Graphic Narratives (Hong Kong: University of Hong Kong Press, 2015). 

9David Kunzle, “Chile’s La Firme versus ITT”, Latin American Perspectives 5, no. 1 (Summer 1978): 119–133. 

10David William Foster, From Mafalda to Supermachos: Latin American Graphic Humor as Popular Culture (Boulder, CO: Lynne Rienner, 1989). 

11Observatório de HQs é um grupo de pesquisa fundado em 1990 por Waldomiro Vergueiro, autor de vasta bibliografia sobre HQs no Brasil. Para produção recente, Waldomiro Vergueiro, Panorama das histórias em quadrinhos no Brasil (São Paulo: Peirópolis, 2017). “Narrativas Dibujadas” é liderado por Laura Vázquez, autora de El oficio de las viñetas: La industria de la historieta Argentina (Buenos Aires: Paidós, 2010). Trata-se de um dos mais importantes e densos estudos sobre HQs escrito na Argentina nos últimos anos – sendo outro título importante o de Isabella Cosse, Mafalda: Historia social y política. Versão resumida de algumas ideias desta obra se encontram em artigo publicado na coletânea de Carrasco, Drinot e Scorer aqui analisada. Revista Latinoamericana, publicada entre 2001 e 2010, contou com 37 números, editados em dez volumes. Revista Latinoamericana de Estudios sobre la Historieta (http://rlesh.mogno.com). 

12Ana Merino, Diez ensayos para pensar el cómic (León: Eolas Ediciones, 2017). Cabe ressaltar que a autora também conta com vasta reflexão sobre a HQ espanhola, o que se atesta na obra aqui citada, que conta com capítulo sobre a série argentina Patoruzú, os comics latinos dos irmãos Gilbert e Jaime Rodríguez e estudos sobre HQs no franquismo, entre outros temas. Para uma análise aprofundada das HQs articulando mais diretamente Espanha e América Latina, Ana Merino, El cómic hispánico (Madrid: Cátedra, 2003). Anne Rubenstein, Bad Language, Naked Ladies, and Other Threats to the Nation: A Political History of Comic Books in Mexico (Durham, NC: Duke University Press, 1998); Anne Rubenstein, Del “Pepín” a “Los Agachados”: Cómic y censura en el México posrevolucionario (México, DF: Fondo de Cultura Económica, 2004). Ambos os trabalhos de Rubenstein centram esforços na indúsria de HQs mexicanas, historicamente uma das mais importantes da região. Frederick Aldama, Your Brain on Latino Comics: From Gus Arriola to Los Bros Hernandez (Austin: University of Texas Press, 2008); Frederick Aldama, Latinx Comic Book Storytelling: An Odyssey by Interview (San Diego: San Diego State University, 2016); Héctor Fernández L’Hoeste e Juan Poblete, orgs., Redrawing the Nation: National Identity in Latin/o American Comics (New York: Palgrave Macmillan, 2009). 

13Para uma análise comparativa dos contextos chileno e brasileiro dos anos 1960 e 1970, com vistas a hipóteses mais amplas para América Latina, Ivan Lima Gomes, Os novos homens do amanhã: Projetos e disputas em torno dos quadrinhos na América Latina (Brasil e no Chile, anos 1960–1970). 

14“Mundo das HQs” é uma proposta de tradução à expressão cunhada por Bart Beaty —em inglês “comics art world”— a partir de Howard Becker, para caracterizar as HQs desde uma lógica sociológica e atenta ao papel dos diversos agentes envolvidos —artistas, editores, vendedores e consumidores, entre outros —na configuração dos significados das HQs num dado contexto. Bart Beaty, Comics Versus Art (Toronto: University of Toronto Press, 2012). 

15Trata-se de literatura vasta. Para uma obra importante e recentemente publicada, Jane Tolmie, org., Drawing from Life: Memory and Subjectivity in Comic Art (Jackson: University Press of Mississippi, 2015). 

16Sobre a relação entre abertura política, neoliberalismo e os desafios que ambos introduzem à cultura democrática, Ksenija Bilbija e Leigh Payne, orgs., Accounting for Violence: Marketing Memory in Latin America (Durham, NC: Duke University Press, 2011). As dificuldades para o amadurecimento da experiência democrática brasileira após a ditadura civil-militar (1964–1985) ficaram evidentes a partir da série de controversos acontecimentos políticos que envolveram o país numa nuvem de incertezas. Em pouco mais de um ano, o Brasil já vivenciou um golpe parlamentar de 2016 que destituiu a presidente Dilma Rousseff do cargo ao qual fora eleita em 2014, a condenação do ex-presidente Lula sem provas concretas e uma recente intervenção militar no estado do Rio de Janeiro que, em termos práticos, dotou a um militar a chefia da segurança pública acima da figura do governador do estado. Em 2018, elegeu-se Jair Bolsonaro, simpático à tortura e a autoritarismos de toda ordem. 

17A recente e premiada Angola Janga, graphic novel de Marcelo D’Salete, é um bom exemplo. Ela procura construir uma visão complexa do mais famoso quilombo de escravos negros que existiu durante a colonização da América Portuguesa, e cujas interpretações recorrentes ainda remetem às disputas do passado ocorridas durante e logo após a ditadura militar no Brasil. Sobre o lugar político da obra de D’Salete no Brasil recente, Ivan L. Gomes e Marcelo D’Salete, “Imaginando uma outra história da resistência negra: entrevista com Marcelo D’Salete,” ArtCultura 21, no. 39 (2019): 117–124. 

18Visto que tende a naturalizar o processo de canonização de nomes como Oesterheld, por exemplo. Para um aporte crítico sobre a construção de Oesterheld como grande nome das HQs a partir da historicidade da leitura de sua obra, Sebastian Gago, Sesenta años de lecturas de Oesterheld (Córdoba: Escuela de Ciencias de la Información, 2015). 

19Charles Hatfield, Alternative Comics: An Emerging Literature (Jackson: University Press of Mississippi, 2005). 

20Hatfield, Alternative Comics, 152–162; Jan Baetens e Hugo Frey, The Graphic Novel: An Introduction (New York: Cambridge University Press, 2014). 

21Thierry Groensteen, La bande dessinée: Un objet culturel non identifié (Angoulême: Editions de l’na, 2006). Tradução minha. 

22Nos Estados Unidos encontram-se algumas obras dedicadas a analisar a especificidade de acervos de histórias em quadrinhos, tratando da sua conservação e armazenamento e indicando quais coleções de HQs deveriam compor uma boa biblioteca. Por exemplo, Robert Weiner, org., Graphic Novels in Libraries and Archives: Essays on Readers, Research, History and Cataloging (Jefferson, NC: McFarland and Co., 2010). No Brasil, Vergueiro representa uma exceção à regra, com alguns poucos artigos tangenciando o problema. Waldomiro Vergueiro, “Comic Book Collection in Brazilian Public Libraries: The Gibitecas”, New Library World 95, no. 1117 (1994): 14–18. 

Informações do autor

Ivan Lima Gomes concluiu seu doutorado em história pela Universidade Federal Fluminense em 2015, com financiamento público via CNPq. Atualmente é professor de história moderna e contemporânea pela Universidade Federal de Goiás, Goiás, lecionando e pesquisando temas ligados à América Latina na graduação e pós-graduação. É autor de Os novos homens do amanhã: Projetos e disputas em torno dos quadrinhos na América Latina (Brasil e Chile, anos 1960–1970) (Prismas, 2018). Também conta com diversos artigos publicados sobre o tema. Dedica-se à pesquisa sobre quadrinhos desde uma perspectiva histórica, a partir dos campos da cultura visual e da história dos impressos.